Maioria dos assassinatos no Brasil fica sem solução, aponta levantamento
Levantamento inédito do Instituto Sou da Paz mostra o tamanho da impunidade no país e aponta caminhos estruturais para frear a violência armada
Uma pesquisa inédita do Instituto Sou da Paz acende o alerta sobre a impunidade no Brasil. De acordo com o levantamento, cerca de 60% dos homicídios registrados no país não são solucionados. O estudo analisou dados detalhados de todos os estados e do Distrito Federal entre os anos de 2020 e 2023.
Os dados revelam que somente 40% dos casos de homicídio doloso resultam em denúncia apresentada pelo Ministério Público até o final do ano seguinte ao crime. Além disso, a análise identificou que as regiões com maior índice de mortes por armas de fogo apresentam as menores taxas de elucidação. Atualmente, o país também carece de um indicador oficial nacional para medir esses esclarecimentos, o que dificulta o planejamento de políticas públicas.
Para o especialista em segurança pública André Pereira, esse cenário reflete um colapso estrutural histórico nas forças policiais. Ele argumenta que o principal obstáculo não é a capacidade dos agentes, mas sim o sucateamento e as condições de trabalho das Polícias Civis.
“Esses números escancaram o colapso de um modelo de segurança pública que aposta no imediatismo político e sufoca a estrutura de bastidor. Se seis em cada dez homicídios no Brasil ficam sem solução, o Estado está emitindo um salvo-conduto para o criminoso violento. O fator que mais dificulta a elucidação não é a falta de competência do policial, mas as condições precárias de trabalho nas Polícias Civis”, afirma o especialista.
Segundo o profissional, crimes passionais ou flagrantes com autor no local são mais simples de solucionar. Por outro lado, execuções encomendadas por facções criminosas exigem ferramentas de inteligência que hoje escasseiam devido à burocracia, ao excesso de papelada e ao forte déficit de pessoal nas delegacias especializadas.
O fortalecimento da perícia técnica e a retirada de armas ilegais de circulação são apontados pelo estudo como caminhos essenciais para reverter esse quadro. Nesse sentido, o uso de sistemas integrados de identificação balística, por exemplo, ajuda a correlacionar diferentes crimes cometidos com o mesmo armamento.
Para André Pereira, investir em ciência e inteligência policial é a única forma viável de quebrar o atual ciclo de mortes.