Prevenção pode gerar economia de R$ 45 bilhões ao ano em custos assistenciais
Qualidade de vida é saída para envelhecimento saudável e redução de doenças crônicas no futuro
O envelhecimento da população coloca as operadoras de planos de saúde em uma encruzilhada que pode levar o setor para dois caminhos. Um deles passa pela implantação de estratégias preventivas, ou seja, maior foco na saúde antes que a doença se instaure, e pelo investimento em inovações tecnológicas, levando à prevenção de até 70% de doenças crônicas evitáveis no país e a uma economia de R$ 45 bilhões por ano em custos assistenciais até 2035. Já a outra trilha é a de continuidade das tendências atuais, que levaria a um colapso da sustentabilidade financeira do setor nos próximos dez anos, conforme pesquisa do Instituto de Estudos em Saúde Suplementar (Iess).
“A janela de oportunidade para essa transformação é única e historicamente determinante: ou a saúde suplementar brasileira abraça proativamente essa mudança paradigmática, posicionando-se como referência global em longevidade saudável, ou seguirá a trajetória insustentável observada em sistemas de saúde que privilegiaram expansão de acesso sem correspondente investimento em qualidade e prevenção”, conclui o estudo.
O documento do Iess avalia o cenário das operadoras de planos de saúde, mas existe um consenso sobre essa necessidade de mudanças entre o Ministério da Saúde, com foco no Sistema Único de Saúde (SUS), e as empresas do setor de saúde suplementar. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que regulamenta e fiscaliza o ecossistema privado de saúde, defende, por nota, que o planejamento e o investimento na promoção de prevenção e atenção primária são fundamentais para garantir a sustentabilidade do sistema. A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), que reúne algumas das principais operadoras de saúde do Brasil, afirmou que suas associadas têm investido de forma contínua em programas de prevenção, acompanhamento e manejo de condições crônicas, como diabetes, hipertensão e doenças cardíacas e renais.
De acordo com a entidade, essas iniciativas são fundamentais para melhorar a qualidade de vida dos beneficiários, ampliar a adesão a tratamentos, evitar complicações clínicas e reduzir internações evitáveis, que são mais frequentes entre pessoas com quadros crônicos. “As operadoras mantêm programas estruturados para pacientes com doenças crônicas, oferecendo acompanhamento remoto, educação em saúde, telemonitoramento e cuidados coordenados. Entre os exemplos destacam-se iniciativas como programas de saúde ativa, acompanhamento contínuo de pacientes, ações preventivas e de autocuidado e linhas de cuidado específicas para portadores de patologias crônicas, incluindo condições cardiovasculares, endócrino-metabólicas e respiratórias”, afirmou a FenaSaúde.
Embora o debate esteja atual no Brasil, em função da mudança na pirâmide etária em curso, essa não é uma realidade apenas brasileira. Nos Estados Unidos, 90% dos US$ 4,5 trilhões em gastos anuais de saúde são direcionados para pessoas com condições crônicas e problemas de saúde mental. A questão é que 70% dessas condições são potencialmente evitáveis por meio de modificações comportamentais e intervenções precoces.
Relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) mostra que as doenças crônicas não transmissíveis e de saúde mental levarão a América do Sul a perdas de US$ 7,3 trilhões de 2020 a 2050, o equivalente a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) da região. O país com as maiores perdas, caso o cenário continue o mesmo, será o Brasil, com prejuízo de US$ 3,7 trilhões no período. Entram nessa conta gastos no tratamento prolongado da população e impactos na economia pela incapacidade laboral. Segundo o estudo Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), pesquisa feita pelo Ministério da Saúde, o percentual de beneficiários idosos com diagnóstico de depressão é maior do que em outras faixas etárias. A pesquisa indica que, em 2023, 16,7% das pessoas com mais de 65 anos na saúde suplementar conviviam com a doença, enquanto para a faixa de 55 a 64 anos a porcentagem era 14,1%, e para a faixa de 45 a 54 anos, 13,2%. De acordo com a FenaSaúde, a especialidade de psiquiatria registrou um aumento expressivo de 18,3% nas consultas médicas com uso de plano de saúde.
Segundo a psicóloga e integrante da Comissão de Formação Gerontológica da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Valmari Cristina Aranha Toscano, existem várias explicações para o adoecimento mental na terceira idade. Uma delas é a maior consciência sobre esse tipo de adoecimento, que nas gerações anteriores não era identificado. Além disso, é uma fase em que o isolamento social, a solidão, o uso abusivo das tecnologias e as inúmeras perdas de familiares e amigos impactam mais fortemente o bem-estar dos indivíduos.
Rodrigo Caetano Arantes, doutor em demografia, mestre em gerontologia e especialista em redes de atenção à saúde, defende que a saída passa necessariamente pela mudança de hábitos por parte da população. “O caminho é investir em prevenção. Pensando-se em ciclo de vida, desde a gestação. Para o cenário de já ser idoso e com alguma incapacidade funcional, o ideal seria investir no cuidado baseado, também, na prevenção de novos agravos à saúde. Estabelecer redes de cuidados para reabilitação, por exemplo. Já existem muitos planos de saúde que premiam clientes que têm como foco o envelhecimento ativo e saudável (que praticam exercícios físicos, cuidam da alimentação). O ideal é que se direcionem práticas para o envelhecimento ativo e saudável da população”, afirma.
Para o geriatra e diretor da SBGG, Eduardo Cruz, é preciso, inclusive, que os médicos se preparem para essa virada no modo de trabalhar com foco na medicina preventiva, e não curativa. “Pessoas idosas muitas vezes não alcançam a reabilitação em momento oportuno devido a inúmeros gargalos, entre os quais a falta de conhecimento dos profissionais de saúde sobre aquilo que não é próprio da velhice, bem como a necessidade de ampliar o número de profissionais capacitados na reabilitação e tornar as carreiras economicamente atrativas”, afirma. Para isso, na visão dele, é preciso incluir o envelhecimento como conteúdo robusto nos currículos de graduação das carreiras de saúde.
O envelhecimento saudável, no entanto, não depende apenas de ações na área da saúde, como explica o médico gerontólogo e ex-dirigente do Departamento de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Genebra, onde liderou a criação e a disseminação do conceito de “envelhecimento ativo”, Alexandre Kalache. “Viver bem depende de quatro fatores ou capitais que você tem que acumular ao longo da vida. Começa com saúde. Saúde é primordial. Saúde vem em primeiro lugar. E a gente sabe que a saúde é criada no contexto do dia a dia. Onde você mora, como você se locomove, onde você trabalha, como você se diverte, como você ama – aí a saúde é criada. Faltando isso, você tem que perceber que a gente precisa de profissionais de saúde que estejam adestrados a tratar de uma população que só faz envelhecer. Isso não está acontecendo. Nós estamos formando médicos e outros profissionais da saúde para o século XX, não para o século XXI. Os médicos, por exemplo, aprendem tudo sobre criancinha e mulher grávida e depois vão ter que lidar cada vez mais com pessoas envelhecidas. Então, viver mais não significa viver bem. Outro fator fundamental é você aprender ao longo da vida. Se você não fizer esse esforço de aprendizagem ao longo da vida, da infância à velhice, você vai ficar de fora. Aprenda a aprender. O terceiro eixo fundamental é o capital social, e ele advém do quê? Do direito de participar da sociedade. Se você não tem esse direito e não pode dele gozar, você vai ficar no canto”.